Qual o melhor som para acordar? O que a ciência diz
Para acordar com menos sonolência, um som melódico tende a funcionar melhor que um bipe áspero: num estudo da RMIT publicado na PLoS One em 2020, alarmes avaliados como melódicos se associaram a menos inércia do sono. Para quem tem sono pesado, sinais graves, por volta de 520 Hz, acordam com mais facilidade que bipes agudos.
O que o estudo da RMIT descobriu sobre sons melódicos?
O estudo da RMIT, universidade de Melbourne, na Austrália, encontrou relação entre o quanto um som de despertador parece melódico e a sonolência ao acordar. A pesquisa, assinada por Stuart McFarlane, Jair Garcia, Darrin Verhagen e Adrian Dyer, saiu na PLoS One em janeiro de 2020 e analisou 50 pessoas que responderam a um questionário online em até quatro horas depois de acordar.
Cada participante informou o som que usava para despertar e avaliou elementos como melodia, ritmo, andamento e volume. A sonolência ao acordar, chamada de inércia do sono, foi medida com uma versão adaptada do Sleep Inertia Questionnaire.
Os resultados foram três:
- O tipo de som não fez diferença. Música, som de natureza ou toque de alarme não tiveram relação estatística com a inércia do sono.
- A melodia fez. Quem avaliou o próprio som como melódico relatou “nenhuma” inércia com mais frequência do que o esperado.
- Som neutro foi o pior. Sons avaliados como nem melódicos nem pouco melódicos apareceram mais associados a inércia “frequente”.
Os próprios autores chamam os resultados de preliminares. A amostra é pequena, as respostas são subjetivas e o questionário podia ser preenchido horas depois do despertar. O estudo aponta uma tendência, não uma regra.
O que é inércia do sono e quanto tempo ela dura?
Inércia do sono é a sonolência e a lentidão dos primeiros minutos depois de acordar, e ela costuma passar em até 30 minutos. Uma revisão de Cassie Hilditch e Andrew McHill, publicada em 2019 na Nature and Science of Sleep, reúne estudos em que o desempenho volta ao nível de antes de dormir em até 30 minutos, às vezes em 15.
O efeito é maior do que parece. Segundo a mesma revisão, o prejuízo de desempenho logo depois de acordar pode ser equivalente ou maior do que o observado depois de até 40 horas sem dormir. Depois de noites curtas, os benefícios do sono podem ficar mascarados pela inércia por até uma hora.
A música de que você gosta ajuda mais?
Ajuda, segundo os poucos estudos sobre o tema. A revisão de Hilditch e McHill cita um experimento de Mitsuo Hayashi e colegas, de 2004, em que tocar música depois de um cochilo curto reduziu a sonolência relatada, e a música preferida pelos participantes melhorou o desempenho cognitivo por até 20 minutos após acordar.
A revisão cita também um estudo de 1992 em que ruído rosa, um chiado contínuo mais grave que o ruído branco, tocado depois de um cochilo de uma hora à 1h da madrugada eliminou a inércia observada no grupo sem ruído. Para os autores da revisão, os primeiros estudos com som logo ao acordar são promissores, mas ainda poucos.
E para quem tem sono pesado, qual som acorda mais?
Para quem tem sono pesado, tons graves e com timbre áspero acordam com mais facilidade do que bipes agudos. A evidência vem de pesquisas sobre alarmes de incêndio conduzidas por Dorothy Bruck, na Austrália: num estudo de 2009 com 39 adultos jovens em sono profundo, ondas quadradas de 400 e 520 Hz despertaram com volume significativamente menor do que os demais sinais testados.
Em outro estudo de 2009, com 38 adultos com perda auditiva de leve a moderadamente severa, o sinal de 520 Hz em onda quadrada acordou 92% das pessoas a 75 decibéis, contra 56% do alarme agudo de 3.100 Hz usado em detectores de fumaça. São estudos sobre despertar em emergência, não sobre acordar bem disposto, mas mostram que nem todo bipe é igual.
Volume alto ou volume crescente?
Não encontramos estudo que compare diretamente um alarme alto desde o início com um alarme que começa baixo e sobe. Com as pesquisas disponíveis, a combinação mais sensata é um som melódico, de que você goste, com volume final suficiente para te acordar.
O despertador do O Cronômetro segue essa lógica com o volume gradual: o som começa baixo e sobe aos poucos, e, com Repetir o som ligado, que é o padrão, toca em loop até você parar, com corte automático depois de 10 minutos.
| Objetivo | Tipo de som | O que a pesquisa mostra | Força da evidência |
|---|---|---|---|
| Acordar menos grogue | Som que você considera melódico | Menos inércia relatada (RMIT, 2020, 50 pessoas) | Preliminar |
| Ficar alerta nos primeiros minutos | Música de que você gosta | Melhor desempenho por até 20 minutos (Hayashi, 2004) | Poucos estudos |
| Reduzir a inércia após cochilo | Ruído rosa logo ao acordar | Inércia eliminada após cochilo de 1 hora (estudo de 1992) | Um estudo |
| Acordar quem tem sono pesado | Tom grave de 400 a 520 Hz, onda quadrada | Desperta com volume menor que bipes agudos (Bruck, 2009) | Consistente em testes de emergência |
| Evitar | Som neutro, sem melodia clara | Mais inércia relatada (RMIT, 2020) | Preliminar |
Como testar o som certo no despertador?
O jeito mais confiável de escolher é testar dois ou três sons por alguns dias e anotar como você acordou. No despertador, a prévia toca cada som antes de você decidir, e o botão de teste dispara o alarme na hora, no volume real.
Se nenhum som da biblioteca agradar, use uma música sua: o guia como usar sua música como despertador mostra os formatos que funcionam. E lembre que nenhum som compensa pouco sono; o guia que horas dormir para acordar às 6h ajuda a acertar o horário de deitar.
Perguntas frequentes
Som de natureza é bom para acordar?
Pode ser, se você o achar melódico. No estudo da RMIT, o tipo de som, se música, natureza ou toque de alarme, não teve relação com a sonolência; o que pesou foi o quanto a pessoa considerava o som melódico.
Bipe agudo é ruim para acordar?
Ele acorda, mas não é o mais eficiente nem o mais agradável. Em testes com sinais de emergência, tons graves de 400 a 520 Hz despertaram com volume menor que os bipes agudos, e no estudo da RMIT sons avaliados como pouco melódicos ou neutros se associaram a mais sonolência.
Vale usar a mesma música todos os dias?
Não há estudo que responda isso diretamente. A pesquisa sobre música preferida sugere escolher algo de que você goste; se a música passar a irritar, troque por outra.
Por que acordo grogue mesmo com um som suave?
A inércia do sono depende mais do sono do que do som: ela é maior depois de noites curtas e varia com o horário em que você acorda. O som ajuda nos primeiros minutos, mas não compensa poucas horas de sono.
Volume alto acorda melhor?
Volume suficiente é obrigatório, mas mais alto não significa acordar melhor. Um som que começa baixo e sobe aos poucos evita o susto, desde que o volume final seja alto o bastante para você.
Fontes
- McFarlane et al. Alarm tones, music and their elements (PLoS One, 2020) pmc.ncbi.nlm.nih.gov
- Sound of music: how melodic alarms could reduce morning grogginess (RMIT, 2020) rmit.edu.au
- Hilditch e McHill. Sleep inertia: current insights (Nature and Science of Sleep, 2019) pmc.ncbi.nlm.nih.gov
- Bruck et al. How does the pitch and pattern of a signal affect auditory arousal thresholds? (J Sleep Res, 2009) pubmed.ncbi.nlm.nih.gov
- Bruck e Thomas. Smoke alarms for sleeping adults who are hard-of-hearing (Ear and Hearing, 2009) pubmed.ncbi.nlm.nih.gov